Tango e Técnica de Alexander

“Não importa o quão grande seja o movimento de uma obra de arte; seja ele de extensões infinitas, ou originado do fundo do céu, ele deve sempre voltar-se para si mesmo.”

Rainer Maria Rilke sobre a obra de Auguste Rodin

Desde meu início no tango, percebo esse contínuo voltar-me para mim mesmo, um contínuo desejo de ocupar-me plenamente em cada compasso de um Pugliese ou Di Sarli. Gosto de dizer que sinto-me preenchido por estas mágicas notas e melodias.

No tango, deste movimento em direção à nós mesmos, surge um outro que, de modo antagônico, nos leva a uma experiência de transcendência, apontando-nos para o outro, e que nos leva a desejar dar prazer a quem temos nos braços e vivermos esses eternos 3 minutos como se fossem os últimos.

Tanto na vida, como nas milongas tangueras, o maior palco onde esse espetáculo se desenrola é o nosso próprio corpo, templo sagrado, nossa história viva e mutante, capaz de ser plena e grandiosa.

É seguindo o brilho destas estrelas que, já orientaram tantos navegadores, poetas e pensadores, que o Tango e a Técnica de Alexander podem , juntos, nos ajudar a encontrar simplicidade, integração, plenitude.

Se você quer experimentar, não perca tempo e venha fazer uma aula conosco.

Deixo para vocês um abraço e dois beijos, um meu e outro do Rodin!

Desfrutem!

le baiser - Rodin

Boas Festas!!!

“Treme a folha no galho mais alto.
(O resto é paisagem…)”
Assim termina Mário Quintana o seu poema chamado UNI-VERSO. A atenção concentrada do poeta, sua tranquilidade para parar e sorver, de olhos fechados, o cheiro bom da terra. Sua disposição para estar presente, inteiro. Sua abertura para um universo que cabe todo, em um único verso…
O que desejo a vocês em 2014 é essa capacidade de abraçar o mundo e o agora sem sair do lugar, e de reconhecer a poesia em uma folha que treme no alto de um galho, em uma caminhada de mãos dadas com alguém que você ame, em um sorriso de boas-vindas, no tango dançado em um bom abraço, no sorriso de uma criança, no contemplar o belo em um pôr-do-sol ou em uma noite cheia de estrelas.
Desejo que em 2014 vocês possam encontrar o infinito, abraçá-lo e, do tamanho dele, se tornar.
Para terminar, deixo a frase de um poeta e pintor inglês, chamado William Blake.
“Se as portas da percepção estivessem abertas, tudo pareceria como é: infinito.”
Boas festas!!!

Ricardo Carpani e o Tango

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Este mês, como vocês já sabem, estamos estudando a Orquestra de Ricardo Tanturi e os seus cantores, Alberto Castillo e Enrique Campos. No entanto, depois da última aula, quando mencionei para vocês o nome de outro Ricardo, o Carpani, pintor argentino, dono de um potente e profundamente comunicativo estilo de viver a arte e fazer arte, decidi publicar algumas de suas pinturas aqui no blog.

No ano passado eu tive a sorte, enquanto dançava no espetáculo “Eva, un recorrido”, de poder ver pessoalmente algumas de suas obras, que, assim como nós bailarinos, também embelezavam aquela linda casa, onde se encontra o museu Evita.  

Ainda me lembro da sensação de arrepio que senti ao ver alguns dos seus quadros, imagens que despertaram  indignação e uma vontade de gritar contra a violência e o abuso que vivemos dia-a-dia e, ao mesmo tempo, imagens que pareciam perfumadas com uma aura de autenticidade, intensas, algumas escuras e cheias de movimento. Sensações que também tive ao ver, por essas minhas andanças, alguns dos quadros de Pablo Picasso e alguns desenhos de Egon Schiele.

Parece que tudo isso que conto não tem muito a ver com tango, mas como já disse, para mim tango não são apenas movimentos do nosso corpo físico, mas principalmente movimentos da alma, e essas pinturas do Carpani moveram a minha.

Um grande abraço!

Pode entrar

Vancouver, 25/05/12.

Pode entrar

Aqui,
entre solidões que se estendem
até onde os meus olhos alcançam,
entre duas descompassadas batidas
do meu coração,
ao desejar os teus beijos,
entre parênteses de silêncios
e colchetes de entregas,
entre as tuas pernas,
entre a lembrança do teu cheiro
e o meu sorriso,
entre aquele delicado e perdido gesto
que revela um segredo
e o teu sorrir,
entre aquele momento
em que não há palavras
e a tua boca,
entre a distância que agora nos separa
ao mesmo tempo que nos aproxima,
entre suspiros onde se pode viver,
amar,
morrer,
nascer.
Aqui,
entre nós,
entre a tua presença e a minha,
entre a minha ausência e a tua,
não há mais espaços,
não há mais vazios.
Aqui,
entre nós,
entre os teus espaços e os meus,
entre os meus vazios e os teus,
não há mais presença,
não há mais ausência.
Aqui,
entre nós,
entre os sonhos,
eu posso te tocar.
Entreaberta se encontra
a porta do meu coração.
Pode entrar.

Luciano Bastos.